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Cartas de Dom Luciano - Meninos sem Família

“Cartas de Dom Luciano”

 

MENINOS SEM FAMÍLIA

08/02/1992

 

Muitas dessas crianças e jovens estão em nossas ruas. Quem não os conhecem? Vendem balas, limão, alho. Limpam pára-brisas. Engraxam sapatos. Pedem esmolas, sujos e maltrapilhos, amedrontam até os passantes. Alguns acabam atraídos pelo roubo e descambam no uso da cola e da droga.

Onde está a família desses menores? No centro de São Paulo, educadores afeitos às lides da rua aproximam-se desses jovens e, ao ganhar a confiança deles, procuram informações sobre os pais e os irmãos. Pouco a pouco, vão descobrindo que muitos desses meninos e meninas de rua estão ainda ligados a alguém da família. Todo esforço é então, o de convencer o menor a voltar para casa e preparar os parentes para recebê-lo. Nem sempre é fácil. Mas é o melhor modo de salvar esses adolescentes. Nada substitui o vinculo familiar. O projeto “Axé” atua com uma equipe especializada e idealista de 50 educadores nas ruas de Salvador. Através de um paciente trabalhado de visita ás famílias, já conseguiu a volta ao lar de centenas de meninos de rua. É o mesmo método que a Pastoral do Menor segue em muitas capitais do país.

Quando não há condição de reintegrar o menor de rua em casa de parentes, é preciso obter alguma forma de amparo que se assemelhe ao próprio lar. Famílias substitutas aceitam a guarda da criança e chegam até a adotá-la. Conheço em Mariana (MG) um casal admirável. Ele, Sebastião é humilde e respeitado por todos. Vende pipoca na Praça Gomes Freire. Luta com sacrifícios enormes. Mas ele e sua esposa já conseguiram, com muito afeto e a duras penas, criar, mais de 60 crianças carentes. O importante não é o dinheiro, mas o amor sincero e generoso de quem assume a criança para educá-la como filho.

A grande solução para o desafio dos meninos de rua é, antes de qualquer outro meio, a volta aos pais e parentes e a dedicação dos que os substituem. Mas para isso é fundamental que se consolide a própria instituição da família brasileira, não só a fim, de acolher a volta de suas crianças e adolescentes, mas para que eduquem com amor os próprios filhos.

Há mais de mil municípios que já formaram os Conselhos previstos nos Estatutos da Criança e do Adolescente e começarão a atuar na perspectiva de promoção da família. Reconhecemos o mérito da Presidência da República ao insistir na prioridade que a Lei Magna concede aos direitos da criança e do adolescente.

Contribuiremos, assim, para que não haja mais meninos e meninas abandonados pelas ruas. Não só. Estaremos reencontrando a vontade de Deus, que estabeleceu o vinculo conjugal e familiar como fonte e garantia do desenvolvimento da vida pessoal e da sociedade.

 

 

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 656 a 658 Vol.II – Texto publicado na Folha de S. Paulo).


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