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Cartas de Dom Luciano - Sal e Fermento

Sal e Fermento

Domingo passado na vila Alpina, durante a celebração da Eucaristia, jovens trouxeram em procissão e depositaram sobre o altar, além do pão e vinho, um pratinho de sal e outro com fermento. Que pretendia os jovens fazendo esta oblação – Deus?

Queriam simbolizar, a luz da palavra de Cristo, seu compromisso diante da sociedade concreta em que vivem. Na semana passada, pedimos aos jovens que nos ensinassem a perdoar, a partilhar e ter esperança. Respondem com sal e fermento.

O sal não só dá sabor, mas impede que os alimentos apodreçam e preserva-os da corrupção. A lição vale para o nosso Brasil. É preciso evitar a podridão moral que vem desgastando a fibra do povo. Em vários níveis dá-se a queda dos padrões morais. No campo dos negócios públicos e privados, temos nos últimos anos acompanhado denúncias de grave escândalos ainda impunes. Na área dos espetáculos televisivos e das publicações, o anseio do lucro fácil por parte dos produtores mistura-se já uma corrupção da própria população que vai se habituando ao desvirtuamento do senso moral. A reforma do Código Penal propõe descriminalização do aborto dos nascituros deficientes. A consciência política dá sinais de corrosão, através da compra de votos e dos conchavos de interesse, tão distantes da busca do bem comum.

Além do apodrecimento do senso ético é preciso evitar o ódio e o rancor que ameaçam corromper o tecido social de modo quase irreversível. Quando a vingança e o revanchismo penetram na historia de um povo, cai-se na malhas de uma absurda e incomoda violência. Perde-se o respeito ao direito e termina-se pretendendo fazer justiça pelas próprias mãos, com requintes de brutalidade e covardia.

O pequeno pires com punhado de sal sobre o altar significa, da parte dos jovens, o repúdio a tudo que corrompe a apodrece a dignidade da pessoa humana.

E o fermento? Dilata e faz crescer a massa. Opõe-se a tudo que coíbe e impede o pleno desenvolvimento da pessoa e da sociedade.

Os radicalismos de esquerda e de direita, expressando a prepotência de grupos que apelam não raro para a violência, restringem e limitam o intercambio de idéias, o sadio pluralismo na busca da verdade, o dialogo político e a alternância de governo, próprios da democracia.

O fermento evangélico é diferente. Faz crescer e expandir-se harmonicamente a vida, de modo que a luta pela justiça não gere novas injustiças, nem o amor à liberdade pessoal leve a excluir os demais dos bens e oportunidade de que se apropriam com exclusividades.

Os jovens pela amizade, abertura de coração, aproximam-se dos valores evangélicos, mas facilmente vencem o desanimo das classes acomodadas e superam as barreiras dos preconceitos sociais e raciais, tornando-se capazes de serem fermento de uma sociedade solidaria e fraterna.

Na manhã de domingo na vila Alpina, centenas de jovens continuavam cantando com voz cada vez mais forte. Uma criança pobre de olhar puro e sorriso nos lábios atravessou a igreja e colocou uma flor sobre o altar ao lado do sal e do fermento. Quando os jovens forem sal e fermento, as crianças poderão, sem medo, caminhar em paz, aprender a sorrir e dar flores a Deus e a todos.

E nós, que não somos nem crianças, nem jovens?

Continuamos sem sal, corrompendo a vida pessoal e pública. Sem fermento, criando ideologias reducionistas, radicalizando posições, fazendo leis que retardam o processo democrático, fabricando e exportando armas. Vale a palavra de Cristo a Nicodemos: “É preciso nascer de novo”. Temos que aprender com os jovens de Vila Alpina o simbolismo do sal e do fermento.

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 271 a 273 Vol.I – Texto publicado na Folha de S. Paulo).

 

Abraço Fraterno e boa leitura/reflexão
Leandro A. Lopes
GAPP - Animação Pastoral


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