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Cartas de Dom Luciano - Mutirão de Solidariedade

                                                      “Cartas de Dom Luciano”MUTIRÃO DE SOLIDARIEDADE27/06/1987

Nos momentos difíceis precisamos mais uns dos outros. É nessas horas que a solidariedade pode alcançar resultados surpreendentes.

O recurso às reservas da solidariedade humana só é possível quando às pessoas superam o egoísmo e assumem em comum as alegrias e vicissitudes da vida. Graças a Deus, nosso povo é capaz ainda de se empolgar pelo mutirão. Assim, quando o dinheiro é pouco e seria até impossível construir a própria casa, a colaboração dos outros e mesmo das crianças faz maravilhas, edificando casas e consolidando a fraternidade. Quando os vizinhos são capazes de realizar o mutirão, formam-se vínculos que valem mais do que as paredes construídas.

Será que a mística do mutirão não poderia difundir-se mais e auxiliar na solução dos problemas nacionais?

Quando a ganância e a corrupção de alguns levam à concentração sempre maior de bens é justamente esta a ocasião de revermos nosso comportamento, vencermos o egoísmo e buscarmos o bem dos demais.

Temos que reaprender a solidariedade que o Evangelho ensina e que está a raiz das soluções dos impasses econômicos e políticos que hoje nos afligem.

Já é um habito acusar o governo das injustiças e desacertos que o país enfrenta. Ninguém nega a responsabilidade dos que têm por missão dedicar-se mais ao bem comum. No entanto, pouco resolve criticarmos a maquina estatal, se nos recusamos a fazer o bem que está a nosso alcance. Quando cada um quer ganhar mais do que o outro e não tem escrúpulos em aproveitar-se da situação, como podemos construir uma sociedade solidaria?

É necessário construir com algo de nossa parte. O que temos é suficiente para todos, desde que seja melhor repartido. O Brasil é um dos países de maior concentração de renda e de desigualdade econômica. Nosso salário mínimo vala menos do que 50 dólares. Se alguns acumulam bens só para si, que sobrará para os outros? Basta considerar a questão fundiária, falta terra ou falta solidariedade humana?

Precisamos descobrir formas concretas de exercitar a solidariedade em bem dos mais necessitados.

A iniciativa dos moradores de favela melhorando em comum às próprias casas é, sem duvida, um exemplo. Os serviços públicos poderiam ser bem mais integrados para promover a ação comunitária.

No Distrito Federal, em Brasília, o combinado agro urbano acaba de apresentar solução inteligente para cem famílias carentes. O uso da terra é cedido para moradia e trabalho. Os lotes residenciais estão recortados em volta de uma enorme praça, onde se encontram a escola, o posto de saúde e o centro comunitário. Cada família recebe uma área melhor para plantio. A agrovila não está longe da cidade. Isto permite acesso a outros serviços e benefícios. Na fase inicial há subsídios para manutenção das famílias. Chamou-me atenção a alegria das crianças e cuidado com as próprias casas. A produção da agrovila virá, por sua vez, beneficiar a cidade.

Aplicando fórmulas semelhantes, por que cada município não constrói suas agrovilas, assegurando assim atendimento mais digno aos sem-terra?

Já pensamos na mágica dos números? Os municípios são desiguais. No entanto, supondo o assentamento, em média de cinquenta familiais por municípios ao ano, teremos o resultado de aproximadamente um milhão de pessoas acolhidas e promovidas com dignidade e sem grandes gastos. O recurso ao mutirão inclui a colaboração da mão de obra dos técnicos e empresários e dos diversos serviços públicos.

A esperança está em Deus. Mas ele nos ensina o amor fraterno que supera o individualismo e nos faz acreditar mais na força da união e da solidariedade humana.

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 153 a 155 Vol.I – Texto publicado na Folha de S. Paulo).

 

Abraço Fraterno e boa leitura/reflexão
Leandro A. Lopes
GAPP - Animação Pastoral

 
 
 

 

 


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