Notícias

Cartas de Dom Luciano - Visão Ética

“Cartas de Dom Luciano”

 

VISÃO ÉTICA

17/01/1987

 

A situação econômica deixou de ser preocupação apenas de técnicos, altamente preparados, para tornar-se tema constante de conversas do povo. A grande questão é a de saber qual o critério que há de nortear as decisões nacionais.

Pelo que a fala oficial do Presidente Sarney e a recente reunião de governadores eleitos indicam, a dimensão social vai recuperando sua prioridade sobre a dimensão meramente econômica. Esta subordinação revela mais profundamente que há intenção de respeitar o critério ético na hierarquia de valores, que exige a precedência do social, como consequência óbvia da dignidade da pessoa humana. É o mesmo critério que rege a supremacia do trabalho sobre o capital, do assentamento de famílias na terra sobre o aumento indiscriminado do latifúndio.

Neste sentido, merece apoio a determinação ética do presidente em reiterar a opção preferencial pelos pobres, mesmo que para cumprir este compromisso seja necessário resistir às pretensões de outros setores da sociedade.

É preciso, no entanto, que as medidas políticas expressem adequadamente esta opção fundamental em favor da dignidade dos milhões de brasileiros empobrecidos, sob pena de ficar aos poucos enfraquecida a força da posição ética.

Entre as conclusões da reunião dos governadores, inclui-se ainda a decisão de tabelar os juros e de agir, com energia e inteligência, na questão da divida externa. O Papa João Paulo II vem chamando a atenção para as exigências da solidariedade universal que deve levar a rever, sob a luz ética, o complexo problema da injustiça que está na raiz da divida externa.

Percebemos, assim, como o critério ético permite reordenar, aos poucos, o novelo e emaranhado de nossa economia. É também a consciência do próprio dever que nos obriga a passar do discurso à práxis, das boas intenções à realização, superado pretensos direitos adquiridos e privilégios, e optando de modo irrevogável pela justiça social.

É ainda, a mesma visão ética que nos ilumina na reflexão sobre dois fatos recentes. O primeiro, refere-se à campanha de proteção contra Aids e tratamento dos que contraem este mal. Todo esforço será pouco. É questão humanitária. Mas já pensamos com seriedade no aspecto ético? Em vez de alguns publicitários laçaram cartazes grosseiros e inadmissíveis – diga-se, de passagem, que o Ministério da Saúde não aprova tal publicação – não é obviamente mais aceitável corrigir o mal pela raiz e promover a reeducação da própria consciência e o autocontrole que devolve à razão o domínio de si mesmo e afasta para longe o perigo de contagio?

Pensemos, com sinceridade, no que aconteceria se todos seguissem um só principio; o de respeitar o vínculo estável e eticamente para o surgimento da vida?

Haveria tantas crianças abandonadas e desnutridas?

Várias vezes no Evangelho encontramos cegos que se aproximavam de Jesus pedindo ao Senhor que lhes restituísse a visão. Mais do que ver a luz do dia, precisamos pedir a Deus que nos ajude, nem que seja Poe milagre, a recuperar a plena visão ética.

 

 (Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2013. P 409 a 411 – Texto de publicado na Folha de S. Paulo)


Voltar

Avenida Álvaro Ramos, 366 - Belém - São Paulo, SP

bompar@bompar.org.br

(11) 2696-3200