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Cartas de Dom Luciano

                            

“Cartas de Dom Luciano”

 

Sociedade mais justa

09/06/1984

Todos queremos uma sociedade diferente, onde a justiça social marque todo o relacionamento humano. No entanto, a vida fica cada vez mais difícil, especialmente para os empobrecidos. Crescem o êxodo rural, o numero de bóias-frias e as vitimas do desemprego em nossas cidades. Daí, a desnutrição, a doença e a crescente violência.

Ao mesmo tempo, dominam o País as campanhas de presidenciáveis. Promessas, conchavos, apreensões, indiferença, expectativas. Enquanto isso o alimento, os remédios, alugueis e transportes desafiam o poder aquisitivo do salário de quem o tem.

Neste contexto cabe repensar o tipo de sociedade que devemos procurar. Metas claras organizam valores, despertam idealismo, nutrem esperanças. Há energias latentes no coração do povo que podem eclodir em explosão caótica, mas também em dinamismo positivo e transformador das estruturas da sociedade. Vale a pena elencar pontos principais da transformação social. São exigências que decorrem do reconhecimento da dignidade da pessoa humano.

Se por um lado a grandeza do homem está na sua abertura ontológica a Deus; por outro, é preciso assegurar, já nesta vida, a este mesmo homem, condições de realização pessoal e social, condizentes com o desígnio do próprio Deus para os Homens.

Qual é a sociedade justa?

É aquela que supera divisões, preconceitos, radicalismos ideológicos e revanchismo. Sem excluir ninguém, procura a solidariedade entre todos, no respeito e na promoção efetiva dos direitos fundamentais de cada um. Isto implica numa diminuição das grandes diferenças entre os que tudo possuem e os que apenas conseguem sobreviver. Deve-se proporcionar a todos uma qualidade de vida mais humana.

Nesta sociedade há que salvaguardar o primado do trabalho sobre o capital, uma vez que a raiz do valor do trabalho é o próprio homem. Já que ele tem direito e obrigação de ganhar o pão pelo seu trabalho, segue-se que o emprego e justa remuneração são necessários a todos.

Nesta sociedade todos devem tornar-se promotores do desenvolvimento individual e comunitário, participando dos frutos do progresso e da cultura e, especialmente, nas decisões políticas, incluindo a escolha dos próprios governantes. Temos, assim, que superar a fase das opções que beneficiam apenas interesses de grupos e que são impostos à coletividade sob a forma de sacrifícios injustificados. Isto implica no esforço conjunto para alcançar reformas estruturais que acelerem o bem-estar das classes empobrecidas.

Por que a inteligência e a solidariedade humanas não podem encontrar, a curto prazo, caminhos que sejam eficazes e superem a tentação da violência, que só viria cavar fossos mais profundos entre os homens e adiar o advento da verdadeira paz?

É neste sentido que entendemos a força construtiva das organizações populares e, especialmente, dos trabalhadores que fazem valer seus direitos de modo firme e estável a favor da justiça e do bem comum.

Cabe a Igreja construir também e cada vez mais com a presença dos valores evangélicos da fraternidade e justiça, da não violência, do perdão e reconciliação. Cabe, sobretudo, afirmar a certeza de que todo esforço em prol de uma nova sociedade deve passar pela eliminação do egoísmo, conversão pessoal e permanecer aberto à transcendência de uma vida para além da morte, na comunhão profunda de Deus com os homens e dos homens entre si.

Nestes dias correu depressa a noticia de que o “Pixote” do filme tornou-se, na vida real, infrator, réu de furtos e desmandos. Profunda tristeza deveria se abater a nossa geração, que soube dar tantos prêmios ao filme de Babenco e nem sequer conseguiu aprender a lição de solidariedade e estender a mão, a tempo, parar este menino de rua.

Não percebemos, ainda, que para educar os “Pixotes” é preciso reeducar a própria sociedade. É sempre tempo para começar e há muito por fazer.

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2013. P 234 a 236 – Texto de publicado na Folha de S. Paulo)

Leandro A. Lopes  

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