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Cartas de Dom Luciano - Por que morrer tão cedo?

                                                         Projeto de Animação Pastoral

 

                                                                                   “Cartas de Dom Luciano”

 

                                                                          Por que morrer tão cedo?

 

14/11/1987

Realiza-se em São Paulo a “7ª Semana Ecumênica do Menor”. Mais de quinhentos participantes representam o trabalho que as Igrejas realizam em São Paulo e em quase todos os Estados. Com efeito, esta é uma das iniciativas que revelam o esforço ecumênico no atendimento aos menores carentes, abandonados e infratores por parte das Igrejas Luterana, Presbiteriana independente, Metodista e Católica.

O tema desse ano resume-se numa expressão forte e questionadora que provém dos próprios menores: “Nascemos para vida. Por que morrer tão cedo?” A questão marca o impacto entre o anseio e o direito de viver e a ação destrutiva da sociedade, fruto de regimes, modelos e estruturas que conspiram violentamente contra a vida de milhões de menores.

O encontro caracteriza-se por uma longa preparação que converge nesses dias para a analise conjuntural, indispensável para detectar atores e relações de força no drama angustiante do menor. O plenário procurará determinar estratégias e práticas que permitam uma ação mais rápida e eficaz em benefício das crianças e dos jovens empobrecidos de nosso país. A ninguém passa despercebido o fato de que a situação dos menores é o maior escândalo e desafio de nossas cidades. É também o sinal evidente da desordem social, cuja vitima indefesa é a criança carente e desamparada.

A avaliação dos atuais serviços públicos revela que carecemos até o momento de uma verdadeira política de atendimento ao menor.

A Febem não consegue realizar a missão que lhe foi confiada. Menores doentes, vitimas de violência, aguardam dias para serem tratados. O sistema está mais voltado para vigiar e punir do que para educar. A Febem torna-se antessala da penitenciaria. Técnicos e monitores enfrentam sobrecarga de trabalho e horários desumanos. É preciso que, quanto antes, se desative o processo de internação dos atuais moldes e se proceda a criação e reforço de novos espaços de atendimento, voltados para o valor pedagógico do trabalho, o convívio em grupos menores e a ação corresponsável da comunidade. A greve dos funcionários poderá abrir as portas da Febem à Policia Militar.

A política do menor requer definição e clareza. Não é possível que a Febem se vincule à Secretaria da Promoção Social e ao mesmo tempo esteja em ação a Secretaria do Menor. É preciso uma política única de metas, métodos e serviços. Parece-nos que a Febem poderia passar por uma profunda renovação se for confiada à Secretaria do Menor, que lhe é próprio.

Não podemos deixar de denunciar, com veemência e tristeza, um fato recente. Quatro menores de quinze anos estão cativos na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, desde o dia 14 de setembro, por solicitação da juíza de Direito de Menores da Comarca de Itapecerica da Serra, com anuência do juiz de Direito da Corregedoria de Presídios. A casa destina-se a adultos presumidamente perigosos. Isto é inadmissível, ilegal, contrario à Constituição, ao Código Penal, ao Código de Menores e ao bom senso. E o pior é que o pedido do habeas-corpus acaba de ser indeferido pelo Tribunal de Justiça. O caso requer imediata solução.

Apesar disso é preciso continuar alimentando a esperança. Deus ouve o clamor das crianças. E há de suscitar sempre mais forte o respeito à vida, o sentimento humanitário e o compromisso cristão. As crianças do Brasil nasceram para viver e não podem morrer ta cedo.

 

 (Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2013. P 424 a 426. Volume I – Texto de publicado na Folha de S. Paulo)


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