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Cartas de Dom Luciano - Liturgia da Esperança

                                                            Projeto de Animação Pastoral

                                                              “Cartas de Dom Luciano”

                          Liturgia da Esperança

02/11/1991

 

Dia 02 de novembro é dedicado aos finados. São mais numerosas as visitas aos cemitérios. O povo ornamenta com flores os túmulos e oferece suas preces a Deus. Alguns, com sacrifícios, enfrentam distancias longas para prestar homenagem nos sepulcros dos que lhe são caros. Em nosso país há grande respeito pelos mortos.

O falecimento de parentes e amigos e as noticias de tantos que morrem a cada dia levam-nos a fazer a pergunta sobre o sentido da existência humana. Experimentamos o anseio de vivermos sempre e felizes. No entanto, não conseguimos escapar ao fato inelutável da morte. A reflexão filosófica, o ensinamento religiosos, as expressões culturais procuram responder, a seu modo, ao enigma da morte e da sobrevivência humana.

Para os cristãos, é central a fé na vitória de Jesus sobre a morte e a certeza da ressurreição. O sofrimento e a dor nesta vida, a realidade e a tristeza da morte estão ligados ao pecado do qual Cristo nos liberta. A promessa de Deus garante-nos a sua graça e a união eterna com Jesus Cristo. Sua ressurreição anuncia a esperança da vitória sobre nossa própria morte. Assim, desde o Batismo, participamos do mistério da Páscoa de Cristo e ficamos orientados para a vida plena na felicidade de Deus.

A promessa de ressurreição pacifica-nos diante da angustia da morte, revelando-nos que somos chamados a alegria da comunhão com Deus e entre nós, quando não haverá mais nem luto, nem dor, nem lagrimas. Deus será tudo em todos.

Assim, na expectativa cristã, a fase terrena é considerada apenas o inicio da vida que Deus quer nos comunicar em plenitude. Aguardando a vida de Jesus, a comunidade se reúne semanalmente – no dia do Senhor – para celebrar a aliança nova e aprofundar a participação na Páscoa de Cristo. Esta celebração litúrgica inclui dois aspectos inseparáveis: o primeiro é a alegria por causa da fidelidade de Deus, que nos dá a certeza de que a morte não é o termo da existência humana, mas apenas o momento da passagem à vida feliz; o segundo aspecto é o da valorização da fase terrena. Com efeito, nossa vida deve ser condizente com a promessa de Cristo. Temos que procurar, com o auxílio divino, rejeitar o egoísmo e o pecado, fazer o bem e cumprir o mandamento da caridade fraterna.  A expectativa da sobrevivência feliz, para além da morte, concede ao cristão uma força especial para empenhar-se na realização dos valores evangélicos, já na fase terrena: a justiça, a paz e a fraternidade. Na verdade, quem crê na vida eterna encontra energias sempre maiores para construir neste mundo a sociedade solidária, em que todos tenham condições dignas de vida.

No entanto, a tradição continua referindo-se a 2 de novembro como o “Dia dos Mortos”. Insiste na tristeza da separação. Já é tempo de ajustarmos o nosso modo de falar às verdades fundamentais da fé e a beleza da esperança cristã. Aqueles que faleceram, pela virtude da cruz do Cristo, à luz da promessa divina, estão na paz e na glória do Céu. Passaram pela morte. Mas agora vivem unidos na alegria da comunhão plena com Deus. Pensando nos que deixaram esta vida em situações de vaidade e pecado, de ódio e perversidade, renovemos nossa fé na infinita misericórdia divina, que tem caminhos de salvação que desconhecemos. Quanto a nós, que permanecemos nas vicissitudes desta fase terrena, fica, cada dia, o dever de superar o mal e o desafio de anunciarmos, em nossa vida pessoal e na sociedade, os valores do reino prometido. Aguardando o encontro definitivo, celebremos, no dia 2 de novembro, a liturgia da alegria e esperança cristã.

 

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 188 a 190 Vol. II – Texto publicado na Folha de S. Paulo).


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