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Cartas de Dom Luciano - " Flores de Vida"

                                                                    Projeto de Animação Pastoral

                                                                          “Cartas de Dom Luciano” 

                                                                    FLORES DE VIDA  - 07/06/1986

 

Vi há dias uma criancinha de traços indígenas com flores na mão. Lembrei-me da fábula Irantxe. Os índios viviam dentro de uma grande pedra. Um deles se transformou em urubuzinho saiu pelo buraco, veio para fora e viu muita coisa bonita. Levou para dentro umas flores. Convenceu a todos de que o mundo lá fora era muito melhor. Os índios saíram, brigaram e muitos morreram. Eram flores de morte.

Hoje, há cerca de 40 milhões de irmãos pertencentes a grupos indígenas que esperam, em nosso Continente, a Evangelização nova.

Alguns enfrentam gravíssimas dificuldades, expulsos das terras, fome causada pela destruição das fontes de reservas alimentares, alto índice de mortalidade infantil e agressões, resultantes da ganância de uma sociedade consumista. Nos últimos 70 anos, foram aniquilados mais de 80 nações indígenas no Brasil.

A Igreja, na sua atividade missionaria, vem se empenhando no resgate cultural dos povos indígenas e para isso procura preparar agentes de pastoral que sejam capazes de conviver com os indígenas, aprendendo sua língua, comungando com seus costumes e colocando à disposição desses povos os valores do Evangelho, especialmente o serviço fraterno e a esperança cristã.

É à luz dessa fraternidade que devemos lutar pela vida das populações indígenas do Brasil. Às vésperas da eleição para a Constituinte temos que assumir o clamor dos povos indígenas por terra e por sua delimitação.

O direito a terra inclui a pronta demarcação que lhes assegure, não só o alimento, mas o espaço cultural. As invasões constantes, os garimpos, recentes projetos de mineração, representam uma ameaça à sobrevivência da população indígena. Para o índio, a terra é a base dos vínculos familiares e tribais, é o roteiro de sua historia, o lugar dos mitos, festas e de sua relação com o próprio Deus. É por isso que ainda hoje as populações indígenas resistem tanto à expulsão de seus territórios.

Para nós, é tão fácil mudar de domicilio. Parta os índios deixar a própria terra significa perder a identidade cultural. Que nosso governo, quanto antes, efetive a demarcação das terras e consolide assim, pela posse pacifica do solo, o futuro dos povos indígenas no Brasil.

Outro ponto, a ser confirmado por lei, é o da autodeterminação. As populações indígenas têm direito a se organizarem. Vivem um profundo ideal comunitário, onde a solidariedade vence o individualismo, e ao mesmo tempo, salvaguarda espaços de liberdade. Faz muito mal aos índios o contato com nosso sistema de bens e ação predatória sobre a natureza. Temos que aprender com os índios a frugalidade, a vida simples, o sentido humanizante do trabalho na terra, o respeito aos ritmos na natureza a ao equilíbrio da ecologia.

Nosso anseio de construir uma sociedade mais justa e fraterna deve captar nesta comunidade indígena solidaria o segredo da convivência e da colaboração, e por outro lado, levar-nos a assegurar aos povos indígenas o direito de continuar vivendo sua identidade, com cultura diferenciada, no seio de nosso país. Isso nos conduz a apoiar sempre mais o surgimento das organizações indígenas autênticas.

Diante dos arsenais de armas nucleares, dos atos terroristas, da brutalidade das sociedades opulentas veio-me de novo na imaginação a face da criancinha indígena de flores na mão. Que flores temos para oferecer às populações indígenas? Que o Evangelho nos auxilie a iluminar a nova Constituição para que assegure a estes nossos irmãos terra e autodeterminação. Flores de vida.

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2013. P 83 a 84 – Texto de publicado na Folha de S. Paulo)


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