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Cartas de Dom Luciano - Dignidade do Trabalhador

                                                                    Projeto de Animação Pastoral

 

                                                                                                       “Cartas de Dom Luciano

 

                                                                                                DIGNIDADE DO TRABALHADOR

09/11/1991

 

Eis o centro das reflexões que em Brasília, de 3 a 8 de novembro, ocupou 200 participantes da Semana Social Brasileira: assessores das pastorais, lideranças sindicais e empresários, trabalhadores e estudiosos, procuram colocar em comum os desafios e perspectivas sobre o mundo do trabalho. A iniciativa, coordenada pelo setor da Pastoral Social da CNBB, foi longamente preparada por 12 semanas sociais em diversas regiões do país.

O evento celebrava o centenário da encíclica Rerum Novarum de Leão 13, em consonância com o tema da Campanha da Fraternidade – 1991: “Solidariedade na dignidade do trabalho”.

A recente pregação do papa João Paulo II no Brasil veio fortificar a convicção de que a concórdia social tem por fundamento próximo a dignidade da pessoa humana. À luz do Evangelho, cada pessoa tem valor insubstituível. Seguem-se como consequência direitos e deveres básicos da pessoa, entre os quais o direito ao trabalho.

Com efeito, é pelo trabalho que desenvolvemos nossas capacidades e contribuímos para a promoção dos outros. Não é preciso muito esforço para constar a dura realidade do mundo do trabalho. Dois elementos saltam aos olhos: o primeiro é a pobreza imerecida e crescente da maior parte da população; o segundo acusa a desigualdade gritante entre os que sofrem privações e o grupo restrito de brasileiros que acumulam terras, riquezas, benefícios da tecnologia . Essa desigualdade opõe-se ao ideal de fraternidade cristã, que somos chamados a realizar. O certo é que a poucas oportunidades de emprego, os salários são insuficientes, continuam numerosos os acidentes de trabalho. A progressiva degradação da qualidade de vida força o empobrecimento a cair na marginalização.

Em clima cordial e de respeito foi possível, durante seis dias, aprofundar temas cadentes como: implicações da nova tecnologia, os empobrecidos e excluídos do mercado, economia e sociedade. Seguiram-se análises feitas pelos trabalhadores e outras, a partir dos empresários e suas organizações para terminar como a reflexão ético-teológica.

Na convicção de que o trabalho é superior ao capital, permanece o desafio concreto de assegurar a participação efetiva do trabalhador e a superação das desigualdades sociais, garantindo, no entanto, condições de eficácia e lucro para que a empresa, possa subsistir e prosperar.

Na solução deste desafio, á luz da Doutrina Social da igreja, há duas dimensões que não podem faltar: solidariedade e transcendência. A primeira decorre da dignidade de toda pessoa e refere-se não só as relações entre trabalhadores, mas ao empenho em resolver conflitos pelo diálogo, ou buscar, para além das reivindicações da própria classe, promover os excluídos do mercado do trabalho. Outra dimensão indispensável é o dos valores escatológicos, que, se por um lado relativizam, por outro dignificam a nobre luta pela justiça social no dizer de João Paulo II. Na atual conjuntura é preciso ter clareza sobre a sociedade que pretendemos construir e saber conjugar esforços para realizá-la. Isto requer, porém para todos a conversão interior. Assim, somente será possível, para uns, abrir mão do egoísmo e privilégios e, para outros, vencer definitivamente a tentação da violência e de formas novas de dominação. A semana de estudos veio confirmar que a tarefa é complexa, mas pertence á esperança cristã ultrapassar a fase das denúncias como a ação concreta, coesa e fraterna em prol da justiça social.

 

(Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 453 a 455 Vol.II – Texto publicado na Folha de S. Paulo).


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