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Cartas de Dom Luciano - Lições da Crise

                                                                                                             

                                                       “Cartas de Dom Luciano”

 

Lições da Crise

                     08/08/1992 

 

Nosso povo reage diante de atual crise de modo diversificado. No entanto, boa parte da população enfrenta o momento atual sem perder a confiança nas instituições democráticas. Este é um saldo positivo de grande valor e que desejamos agradecer a Deus.

Diante dos recentes acontecimentos, vêm-se reunindo grupos representativos da sociedade para avaliar a situação e buscar saídas para a crise. No dia 06 de agosto foi a vez de Belo Horizonte. Um denominador comum nestes encontros é a indignação ante a corrupção impune e o reconhecimento da necessidade de respeitar a ética na vida política.

Há, no entanto, lições preciosas que daí decorrem. Uma delas – a mais importante – é a percepção de que os valores éticos são a pedra angular de todas as relações entre pessoas e instituições. Este principio vale não só para a política, mas para a inteira sociedade. Somos, assim, convocados para um amplo exame de consciência nacional, identificando as falhas no campo econômico, como o aumento indiscriminado de preços e os grandes negócios em que se procura a vantagem de poucos em detrimento do bem do povo. O mesmo acontece, infelizmente, na área dos meios de comunicação, que por ganância buscam programas de TV, de forte audiência, sem escrúpulos para com as exigências da moral.

A lição de revisão comportamental atinge a todos. Não se trata apenas de evitarmos a deterioração dos valores morais em nossa conduta, mas captarmos os demais deveres inerentes à cidadania. A política não é tarefa de alguns. Somos todos chamados a dar nossa participação e a promover o bem comum. Temos que vencer a omissão e apatia e assumir, com maior responsabilidade, nosso compromisso cívico. Começa pela obrigação de votar de modo consciente, informando-nos sobre o candidato, partido e suas propostas. Continua pelo acompanhamento da atuação dos eleitos e pela cooperação nos conselhos municipais de educação e saúde, da criança e do adolescente, das organizações pela moradia, cultura, lazer e outras iniciativas. Estamos dispostos a colaborar?

Eis o compromisso ao qual não podemos nos eximir. O processo de participação política é de lento aprendizado, e a democracia só se constrói com a colaboração de todos.

O momento ensina-nos a discernir. Apesar dos sobressaltos políticos, não podemos perder de vista as metas fundamentais, respeitando sempre a prioridade da criança e do adolescente. Não é admissível angariar adesão de pessoas e partidos à custa de cortes orçamentários nos setores vitais para a população. Lamentamos, com clemência, a redução da verba destinada à merenda escolar.

A mesma lição de discernimento leva-nos a reforçar as instituições democráticas para que sejam capazes – como navio na tempestade – de enfrentar e superar os desafios. O amadurecimento democrático requer, no entanto, que não haja atropelos, evitem-se pronunciamentos precipitados e proceda-se amplo direito de defesa, sabendo aguardar os resultados finais. Segue-se depois, o indispensável empenho em corrigir falhas e ordenar a vida política no país.

Nesta fase de purificação coletiva, pedimos a Deus que nos ajude a aprender muitas lições e que alimenta a união e a esperança. Procuremos alcançar as prioridades dos valores éticos. Garantiremos, assim, a retidão do processo democrático, em vista de uma sociedade que respeite a justiça e a solidariedade. Neste caso, a crise há de ser benéfica.

 

 (Dizer o testemunho / Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. – São Paulo: Paulinas, 2016. P 668 a 670. Volume II – Texto de publicado na Folha de S. Paulo)


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