Aniversário do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima

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Data do Evento: 23/02/2018

Localização: Rua Siqueira Cardoso, 277 - Belenzinho, SP

 

Desde 1990 o  Núcleo  de Convivência São Martinho de Lima desenvolve um trabalho voltado a população em situação de rua.

 

O Centro Comunitário São Martinho de Lima desenvolve suas atividades com a população em situação de rua desde Fevereiro de 1990. Foi a primeira unidade de prestação de serviço à população de rua conveniada com a Prefeitura de São Paulo. A partir daí, em parceria, SAS-MO e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto vem tentado, num esforço de crescimento e adaptação contínuos, como requer o tipo de clientela e a complexidade da questão, responder a esse grande desafio social.

O trabalho começou a partir da “intenção-ilusão” de transformar a população de rua da área da Região Administrativa da Moóca em uma organização de catadores de papel. No decorrer das atividades tornou-se evidente que essa facção da população não tinha (e não tem), com algumas exceções, condições de realizar uma atividade sistemática, com rotina diária, nem a organização grupal necessária para a coleta de papel e papelão. Assim, foi necessário o redimensionamento do trabalho em face à necessidade que se percebia: criar referenciais para essas pessoas, construindo relações afetivas e espaços de convivência.

A população que acorreu ao Centro Comunitário nesses muitos anos de atividades compõe-se de, basicamente, desempregados, subempregados, trabalhadores informais que sobrevivem de bicos ou pequenos expedientes, seja na marretagem, encartando ou carregando jornais, cuidando de barracas de ambulantes; guardadores e lavadores de carros; pessoas expulsas de cortiços e pensões, e um grupo reduzido de catadores de papel e papelão. O grupo amplamente majoritário é o dos desempregados e subempregados, egressos de penitenciária e da Febem e os incapazes de conviver com a família.

Tem-se tentado, desde então, desenvolver com o povo de rua uma programação que corresponda às suas necessidades básicas (alimentação, higiene e saúde) e também às suas necessidades de agregação e ocupação.

A programação diária do Centro Comunitário muitas vezes atendeu ao número máximo de pessoas que o seu espaço físico comporta. Sempre foram características desse trabalho recuperação da cidadania, do direito e da dignidade humana. Isso se torna possível graças ao envolvimento geral de todos os agentes contratados pelo projeto.

A otimização de todas as atividades criou novas expectativas e necessidades que justificaram a continuidade e ampliação do projeto anterior. A cada ano, desde a fundação do Centro Comunitário São Martinho de Lima, assim tem sido: há uma realidade que é extremamente dinâmica e que só pode ser enfrentada com uma proposta aberta e flexível, inovadora e arrojada. Tão arrojada e flexível que respeite o movimento da população pela cidade, as épocas de festas e até mesmo a lua, o clima e as estações do ano. Assim, serviços e atividades levam em conta essas variações e tornam-se mais eficazes, sempre procurando oferecer ações diferenciadas que possibilitem a melhoria da qualidade de vida da população de rua.

Não podemos esquecer que o Centro Comunitário São Martinho de Lima – Povo de Rua gestou graças à sensibilidade, a dedicação incansável e o amor que Dom Luciano, Padre Júlio e Ir. Judith nutrem com o povo da rua. Havia um grupo que morava em baixo do viaduto Guadalajara; vários encontros em torno da fogueira e sentados em caixotes de madeira conceberam e frutificaram a Comunidade.  A Comunidade em baixo do viaduto emana uma mística e uma história de edificação de laços e significados. A Comunidade foi construída graças as comunidade pobres da Zona Leste de São Paulo.

O Centro Comunitário conserva, também, algumas atividades que eram desencadeadas antes mesmo da construção física da comunidade como o espaço cidadão e o grupo de reflexão ecumênica.

Vivemos um período historicamente e culturalmente angustiante e desafiador.  A incerteza, a insegurança e o descalabro nos rondam sorrateiramente. Nunca as contradições foram tão evidentes e questionadoras: o fausto convivendo ao lado da penúria! Nossa alma dilacera-se ante tanta fome, intolerância, violência e sofrimento...

O morador e a moradora em situação de rua é um fenômeno sócio-cultural-econômico; eles possuem em seu bojo existencial um histórico de rupturas e sucessivas perdas e vivem em extrema vulnerabilidade social. E um dos arcabouços que se esfarelam, também, é à estrutura familiar. Há vários vetores que convergem para o desmantelamento do núcleo familiar que deságuam nos derradeiros víeis das ruas. Tal fenômeno é complexo, árduo e possui uma dialética que constitui uma estrutura orgânica própria que exalam um desafio para todos.

O Centro Comunitário é referencia para a população sofrida que vive em situação de rua. É espaço que materializa insondavelmente a hospitalidade, o acolhimento, a escuta atenta e afeta que culmina com o cuidado: convivência respeitosa e tolerante. Enfim, é a possibilidade de engendrar a primavera oculta de energia inesgotável.

Apesar de todos os desafios ardorosos, complexos e angustiantes o Centro Comunitário São Martinho tem registrado inúmeros sucessos:

  • Um dos diferenciais do Centro Comunitário é acolher a todos; o São Martinho opera com os portões abertos; têm um histórico bastante significativo e próspero entre os próprios conviventes de acolher sempre e estender as mãos aos mais “caídos”, aqueles que estão há muito tempo em situação de rua; além das técnicas e de ações de políticas públicas precisam, também,de bondade amorosa, atenção e cuidado ético;
  • O Centro Comunitário serviu e ofereceu milhares de refeições (mais que nutrição é o cume da convivência), banhos, roupas e fez centenas de curativos;
  • O Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto já contratou doze conviventes do São Martinho;
  • Na Cooperativa Central Tietê são mais cinco conviventes que estão trabalhando e cooperando com o meio ambiente reciclando papeis, alumínios, vidros e outros materiais. Reciclando materiais e as suas vidas;
  • Em quatros anos, o Centro Comunitário acompanhou mais de quatrocentos conviventes nas frentes de trabalho tanto da Prefeitura quanto do Estado;
  • Há inúmeros conviventes que, hoje, se encontram em movimentos populares como de moradia, sem terra, catadores e outros que se prepararam no coração da Comunidade;

Outro desafio inerente ao longo da caminhada são os indicadores qualitativos que são imensuráveis. Muitos moradores e moradoras sofredoras em situação de rua resgataram a sua inalienável dignidade mesmo ainda no seio das ruas. Regularizaram seus documentos e resolveram problemas junto à justiça. Cuidam-se melhor; se preocupam com a sua saúde; participam de movimentos políticos; estão construindo seus projetos de vida; são pessoas autênticas, são arquitetos de um novo amanhã que começa hoje!